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As Máquinas Poéticas

AS MÁQUINAS POÉTICAS

Daniel Veronese

(Divagações depois de uma tarde agitada [15/05/2001])

Disse Karl Kraus a respeito da lógica: “ A lógica é inimiga da arte. Mas a arte não deve ser inimiga da lógica. A lógica deve ser saboreada pela arte e inteiramente digerida por ela. Para afirmar que dois mais dois são cinco é necessário saber que dois mais dois são quatro. Sem dúvida, quem sabe somente este último, dirá que aquele é falso”.
Estive pensando algo a partir disto. Creio que se trata de criar uma máquina poética. Uma máquina de elaborar sentidos; uma máquina de criar sentimentos distanciados da lógica. Uma máquina de 2×2 = 5.
Em cada um de nós deve-se elaborar uma máquina própria. O espetáculo poderá ser a máquina por inteiro, a somatória. Sempre gostei de definir os espetáculos como máquinas de produzir sentidos. Não se deve pensar em frieza quando pensamos em máquinas, por favor.
Como é uma máquina?
Poderíamos observá-la como uma concentração de funções (ou disfunções) que produzem ações teatrais. Ação é tudo que permite uma troca segundo o provável (não confundir o ‘provável’com o ‘possível’) e segundo o necessário. O que é necessário para um determinado fim deve ser deixado de fora, por mais belo que seja. A ação deve produzir desequilíbrio nas forças. Ação como uma qualidade que imprime cor, impacto ao que é percebido pelo espectador. É bom sempre se levar em conta o que é percebido pelo espectador. Colocar-se no seu lugar.

O todo será encarado como o que vêm da personagem (ainda que não estejamos mais que atuando nosso próprio momento incerto, desconcertado e improvisado). Agitação ou movimento físico não corresponde sempre a ‘desenvolvimento’ ou ‘crescimento dramático’. Esta troca deve produzir algo. Se nada se faz, se não se age o equilíbrio permanece estático. E nos chateamos, facilmente.
Se elaboro um discurso EQUIS (“diferente”) posso entreter (ou não). Se adiciono meu segredo pessoal que aparece e desaparece como uma onda na percepção do espectador posso dizer que estou começando a criar uma máquina poética. Algo que se vela e revela quase em uníssono chamará a atenção do espectador. Seu raciocínio se alertará. Jogar com o sentido do texto e com a aparição do segredo. Jogar quer dizer enganar leve e suavemente. Quando o espectador se encontra estirado na poltrona pensando que já entendeu tudo e que compreendeu o jogo… altere-o. Mude as leis do jogo. Comece a desnudar o jogo. Ou escondê-lo quem sabe seja também o momento para mostrar esta virtude na qual nos sentimos tão orgulhosos. Ou quem sabe se trate de que nunca se intere do jogo que estamos jogando na sua frente. Todo mundo espera ‘a idéia’ ou ao menos ‘uma idéia clara’. Deve-se romper a expectativa. Descascar a cebola. Voltar a cobrir-lhe com casca. Fazer desaparecer suas cascas. Encontrar os truques para que a máquina se ponha em funcionamento e não se detenha. Não deter a máquina não significa que se deva sempre estar em movimento. A máquina tem que estar mais ligada com a percepção do espectador do que com nossa percepção de tempo e espaço. Pensemos que o senhor na poltrona vê, escuta, pensa, desconfia, decodifica, trata de se adiantar aos acontecimentos, de encontrar referências em todo este conjunto de expressões que sou eu com meu corpo, minha voz, meu figurino, meus objetos, minha música, mas com meus silêncios e minhas imobilidades também. Lembre-se que se escuta melhor o grito no silêncio. Uma mão apontando o rosto de um ator durante intermináveis minutos produz mais tensão que o disparo. Manejar o que está suspenso para que floresça a necessidade de saber algo que ainda não se sabe. Assim se leva o espectador pela ponta do nariz até o final.
Pensemos na primeira parte de Hamlet, a aparição do fantasma/pai. O que entendemos, realmente? Nada é muito claro no início. Podemos nos perguntar: Será esta uma obra sobre fantasmas? Hamlet está louco? O fantasma é um truque? O fantasma mente? Aparecerá de novo? Quero que apareça de novo. Tudo nos desequilibra e nos leva a querer saber, a querer que algo se desenvolva, sem se importar demasiadamente que coisa é essa que tem que se desenvolver. É a cabeça, o reino das idéias que nos mantêm sujeito da obra? Não estou muito seguro. O que se poderia afirmar é que não sabemos quase nada ainda. E que a forma em que Shakespeare decide por em marcha a maquinaria poética da suspensão nos promete fortes emoções a partir do não-saber. Se, ao invés disso, na cena entre Hamlet e Cláudio, se tivesse desenvolvido um diálogo ‘realista’, em torno da própria vida, com o primeiro dizendo o que pensa: ‘ Penso que você matou meu pai para ocupar seu lugar e Cláudio nega, obviamente. Hamlet repete que sim e diz para Cláudio ‘ir à merda’ e ‘vá você’’, e assim sucessivamente. Um dizendo que sim e outro que não… que vão à merda os dois. A quem pode chegar a interessar o processo? Há mistério numa trama entregada desta maneira? Não há desequilíbrio algum. Nem mesmo com uma luta de morte. Não estaria carregada de sentidos como logra estar no final da obra. Não haveria máquina já que o único elemento que estaria em jogo é a discussão linear sobre o tema. Nada esconde coisa alguma. Está tudo desvendado. Convenhamos que a aparição do fantasma é um jogo de realidade/ficção inteligente, mas é, sobretudo uma decisão do autor, ousada para qualquer época. Shakespeare teve que dar um passo mais além do esperado. Afirmar sem pudor o 2×2 = 5.

Então, voltando a nossa humilde realidade, deveríamos pensar em outras formas que, como cascas de cebola, nos permitem esconder o conhecido ou o que cremos conhecer. E tudo dissolvido numa só pessoa, em você. Pense na cena e pense em você. Você está obrigado a estar ali. É uma situação séria. A Academia requer e espera. Suficientemente patética. Não se deve atuar o patetismo. Deixe que flua como sentimento no olhar de quem o vê. Coloque-se abaixo do público. Ser inferior. Ou que ao menos não pretenda ser mais inteligente que o público. Isto fará de vocês mais queridos. Lembrem-se que todo ator necessita de solidariedade de quem está do outro lado.
Pense em uma casca de cebola que poderia cobrir todo o espetáculo. Desde então desnudar-se. A situação é a seguinte: ser atores principiantes. Não é comovente? Que esta vez que se pisa no palco seja vivida como a primeira vez. Não são tontos, não são tímidos. Só não sabem como se atua ou como atuar nesta situação. Ou se dão conta de que a forma aprendida durante tantos anos na Escola se apagou pela força do espanto. Espanto do momento. Petrificação mais ou menos manejada. Quase não se pode respirar. Espanto e admiração por toda esta gente que vieram nos ver. Não posso deixar de olhar o público com admiração, surpresa e respeito. Agradecimento? Tenho humildade já que vou fazer algo, e vou fazer o melhor que posso; tenho medo já que não sei se conseguirei algo para acalmar tanta expectativa. É impressionante o público, nunca havia sentido isso. Eu imaginava de outra maneira. Diferente… diferente como?
Então sou a persona, não o personagem, frente a este público. Faço meu o discurso do texto. O público não deve saber que não é meu. Devo enganar-lo. Mas para isso devo ser sincero. Cruel paradoxo. Não devo atuar. Não me lembro como se faz. Mas eles estão aqui. Devo tratar de ser aceito. Faço o que for. O público não deve pensar que somos um grupo de atores que têm ensaiado ou praticado durante anos frente a um espelho e agora, por não sei que golpe de sorte se encontra aqui, em uma sala central, em plena capital. Olho para os meus companheiros. Intuo que nossos tempos de atuação são ilimitados, não temos noção do tempo teatral. Temos estado sozinhos frente a nós mesmos como espelhos, imaginando grandes ornatos decorados, belas réplicas. Não me lembro que é um conflito. Só tenho este texto na cabeça, por sorte tenho também meu segredo, e alguma outra virtude que aprendi de pequeno no qual me foi possível realizar as delícias das festas familiares. E tenho (o que me mantém) esta profunda intenção carregada de mistério e temor ante este monstro que parece que me devora enquanto me olha com seus inumeráveis olhos. Tenho este espaço para ficar todo o tempo que necessite, tenho este público como uma nova prótese, só que não é uma prótese própria, é estranha a mim, e é um lugar no qual posso ficar escorado, posso me apoiar. É uma paisagem lunar, é o/a amante que supera qualquer desejo sonhado. E não sabemos se vai nos abraçar ou se vai nos dar um pontapé no cu. Não falo com ele, falo para ele. Sou capaz das mais terríveis confissões. Das mais inauditas exposições com o fim de querer e ser querido. Em definitivo de transformar minha existência cotidiana vulgar em uma verdadeira máquina poética. E compartilhá-la. Mas de verdade, compartilhá-la. Para isto estou aqui. Se não vou embora. Penso então que as máquinas poéticas deveriam estar na categoria celestial das máquinas da verdade. Não posso pensar somente em máquinas de atuação. Pode-se ser verdadeiro em cena sem atuação. Ou sem encarnar um personagem.

O.K. Todo este corolário é para registrar meu humilde e óbvio pedido: tratem então de criar uma máquina poética. Penso que se uma máquina funciona, logo poderia funcionar com outra e assim sucessivamente. Estou pensando também, que alguns de vocês não vão entender. Não importa, o teatro não é uma ciência exata. Nunca foi. Se pode não entender e ser sublime ao mesmo tempo e aliás, se restar algo, transcenda a idéia mais acabada. Traduza-o com sua experiência. Creio que não há nada mais importante para se entender que já não tenham entendido fora destas palavras.
Mas? E como se faz tudo isto? Para isso é que não há receita. As receitas dizem que a multiplicação resultará em 4 e não em 5. Tomem como uma corda que dou. Agarrem-se onde puderem. Não é inquietante se pensar como uma máquina de sentidos profundos, belos, estranhos? Deve-se começar por imaginá-la como faço eu. Sei que até agora está somente na imaginação. Saberemos se a máquina finalmente se põe em movimento no trabalho da cena. Não podemos verificar nada fora. Se não, qualquer um faria. E seria muito mais fácil a vida de artista.

Daniel Veronese
Diretor do espetáculo “Open House”, Instituto Nacional de Arte Dramática da Argentina.
Tradução: Jefferson Bittencourt